Vivendo a saúde do Québec

Categoria Estilo de vida na cidade de Québec Data 25/06/2014

Escrito porMasaru Hoshi

Uma das coisas que sempre achei extremamente errado enquanto morava no Brasil era o fato de ter que pagar por serviços de saúde. Quando a gente conseguia um trabalho onde a empresa oferecia um plano de saúde empresarial que englobava os familiares, era motivo pra celebrar. Afinal, isso significaria uma economia de algumas centenas de reais todos os meses. Mas quando não se tinha essa sorte, era pagar ou cair na loteria da incerteza da saúde pública e tudo o que a gente via na televisão.

Minha mãe, hoje aposentada, trabalhou como médica por vários anos. Por opção própria, parou de trabalhar para cuidar dos filhos e voltou à batente quando todos nós já éramos maiores. Tivemos a sorte de poder contar com ela em problemas menos graves, mas quando a coisa realmente ao menos durante a infância e o começo da adolescênia, tínhamos um plano de saúde particular que nos salvou de pagar contas sem fins de hospitais, exames, consultas e coisas do gênero. Seguindo os passos da minha mãe, minha irmã caçula também resolveu ser médica e como a minha mãe, também trabalha em postos de saúde como médica de família. Acredite: é tão triste ouvir as histórias dela quanto também esperar pra ser atendido.

Quando eu tinha meus 15 anos terminei indo parar em um hospital, onde passei por várias cirurgias e acabei internado em uma UTI por algumas semanas. De tudo que aconteceu nesse período, acabei ganhando de brinde o vírus da hepatite C em uma das transfusões de sangue que precisei fazer, mas só fiquei sabendo disso anos mais tarde quando resolvi doar sangue pela primeira vez. O vírus já estava fazendo seu trabalho de aos poucos acabar comigo, mas felizmente a médica que me acompanhava foi rápida pra detectar isso e sugeriu que eu tentasse o tratamento o mais breve possível. De fato, só existia um tratamento conhecido e nem todas as pessoas eram elegíveis. Por sorte eu fui era e após 3 anos de tratamento e acompanhamento me vi livre desse problema.

Verdade seja dita: o tratamento envolvia o uso de medicamentos muito além do que o meu bolso era capaz de pagar. Faça as contas:

  • cada dose dos medicamentos custava entre R$1.500 a R$2.000;
  • eu precisava de 1 dose por semana;
  • o tratamento demoraria entre 1 e 1,5 anos.

Fez as contas? Caro, certo? Pois é. E pra ajudar plano de saúde algum cobria essas despesas. Quem acabou me salvando foi finalmente o SUS mesmo. Tudo bem que eu precisava chegar todos os meses, ainda de madrugada, na secretaria de saúde pra pegar meus medicamentos, mas era isso ou nada. Infelizmente depois de quando eu fiz o tratamento o Governo resolveu acabar com esse programa e centenas de milhares de pessoas têm que pagar por isso.

Fonte: Universidade de Washington

Fonte: Universidade de Washington

Mas por que eu estou contando toda essa história em um blog que fala sobre a vida no Québec? Bom, primeiro porque eu falo pelos cotovelos. E segundo porque eu precisava explicar o meu receio quando descobri que o Canadá conta somente com um sistema de saúde público e como eu ia fazer pra sobreviver a ele.

Quem assistiu ao filme « Invasões Bárbaras« , do diretor québecois Denys Arcand, deve lembrar do começo do filme, onde uma enfermeira anda por um hospital com cabos pendurados no teto e pacientes em macas nos corredores. Era aquela a visão que eu tinha da saúde do Québec. Com todos os problemas que eu tive, nada que as pessoas me dissessem tinha como me deixar menos preocupado sem que eu realmente conhecesse tudo de perto.Eu conheci, tanto por dentro quanto por fora. Já estive em clínicas, fiz exames de urina, sangue, radio-x, tomografia, ultrassonografia e até fiquei internado em um hospital quando meu corpo deu sinais de que algo não estava 100%. Tivemos a sorte de conseguir uma médica de família que atende a mim, minha mulher e meu filho sempre que precisamos e dentro da disponibilidade dela.

Diferente do sistema de saúde, os remédios aqui não são gratuitos e alguns podem custar bem caro. Felizmente aqui existe algo chamado « seguro de medicamentos », geralmente oferecido por algumas empresas como benefício aos funcionários. Pra nossa sorte tanto a Ubisoft quando a empresa pra qual minha esposa trabalha nos oferecem esse benefício que não nos isenta do pagamento dos remédios, mas dão descontos de podem chegar a 90% dependendo do caso.

Apesar das coisas sempre terem funcionado razoavelmente bem pra gente, o sistema não é perfeito e aquilo que você ouviu falar sobre faltar profissionais de saúde e às vezes ter que esperar pra ser atendido é verdade. Porém, pelo menos quando precisamos ir a hospitais, nunca chegamos a ver algo parecido com o caos mostrado no filme de Denys Arcand.

Com o tempo você entende como entrar no sistema e não se stressar tanto e a aprender a conviver e a tirar proveito de tudo. Aliás, pense bem. Se tudo fosse perfeito, nem de médico você precisaria, certo?

Quer saber mais?

No PoDeixar fizemos um programa contando nossas experiências com o sistema de saúde no Canadá, dando mais detalhes sobre como é uma clínica, o atendimento hospitalar e coisas do gênero. Escute o programa aqui: http://www.podeixar.com/vivendo-a-saude-publica/

Se você tiver curiosidade de conhecer um médico brasileiro que hoje trabalha no Québec na sua profissão, não perca também esta entrevista que fizemos com o Dr. Alexandre Odashiro: http://www.podeixar.com/sendo-medico-no-canada/