Vivendo com o frio

Categoria Mexa-se, Estilo de vida na cidade de Québec Data 27/02/2014

Escrito porMasaru Hoshi

O frio é engraçado. A física define frio como ausência de calor e calor nada mais é do que agitação entre as moléculas. Pra mim o frio é parte da minha vida.

Enquanto eu era pequeno e ainda morava em Belém, eu acho que nunca realmente me dei conta do que era frio de verdade. Isso é uma das vantagens de morar em região tropical, você só usa blusas ou quando está doente ou quando o ar condicionado está muito desregulado. Lembro de várias vezes ter saído pra brincar na chuva ou de voltar de madrugada na chuva de alguma festa com meus amigos. Meu primeiro contato verdadeiro com o frio foi quando me mudei para o Sul do Brasil. A visão daquele « -1ºC » nos termômetros na rua ao mesmo tempo me fascinava e deixava minhas pernas que não paravam de tremer em completo desespero.

Meu pai me contou uma vez que quando morava uma vez, a casa dele estava tão fria que quando foi no banheiro uma vez o frio foi suficiente pra congelar o vaso sanitário. Sinceramente eu nunca fui atrás de saber se aquela história foi real ou não, mas naqueles primeiros anos em Curitiba eu lembro que acordava com a sensação que ia chegar no banheiro e ia ter aquela visão pela manhã. De fato isso nunca aconteceu.

Termômetro no Inverno

As casas no Brasil, mesmo em regiões muito mais frias que onde eu morava, praticamente não são construídas tendo em mente o isolamento térmico. Resultado: dentro das casas é quase tão frio quanto do lado de fora. Pra quem nunca morou por lá, imagine dormir e até mesmo tomar banho em dias quando a temperatura está quase 0ºC lá fora. É difícil. Além disso, as roupas que temos por lá não são feitas com o isolamento em mente, o que nos obriga a usar camadas e mais camadas de roupas pra nos manter aquecidos. Não bastasse tudo isso, em alguns dias a variação climática pode chegar a variar 20ºC graus, lhe obrigando a carregar todas aquelas roupas nas mãos se você não quiser derreter nas ruas.

Imagine então a minha apreensão com o inverno ao chegar no Québec. Chegamos quase no final do verão, dia 31 de agosto. Fazia um calor impressionante e ainda pudemos aproveitar bastante nos parques e nas piscinas. Aos poucos o clima foi mudando e ficando mais parecido com o que eu estava acostumado nos meus 15 anos morando no sul do Brasil, mas desta vez eu tudo era diferente. Mesmo nos dias que já fazia perto dos 5ºC lá fora, dentro do nosso apartamento fazia confortáveis 21ºC e eu até mesmo ficava sem camisa pela casa. « Como será que vai ser o inverno? », eu me perguntava e já não conseguia encaixar a descrição daquele vaso sanitário congelado que meu pai me falava com aquilo que eu experimentava.

O inverno chegou e eu descobri que realmente era possível ficar muito mais frio do que naqueles anos quando eu olhava o termômetro pela janela do ônibus. Durante o ano novo resolvemos ir à Grande Allée, no centre-ville de Québec, para ver os fogos. Nunca me arrependi tanto. Fomos de ônibus e nosso filho tinha pesados 5 anos adormecidos sobre meus ônibus, subindo e descendo aquelas ladeiras enquanto o termômetro marcada -35ºC e o vento ajudava ainda mais dando a sensação dos assustadores -47ºC. A experiência do ano novo não foi muito rápida porque rapidamente sentia (na verdade, deixava de sentir) meu nariz avisando que não dava mais. Depois daquele dia a gente aprendeu que existem dias pra sair e dias pra fazer outra coisa, além de haver roupas próprias pra cada passeio.

Bonhomme Carnaval
Cão Simpatico

O frio é engraçado por aqui. Ele pode fazer teu nariz congelar quando andar pelas ruas ou fazer você ficar com uma barba branca igual Papai Noel quando faz snowboard nas montanhas. Ele também te lembra que precisa prestar atenção na previsão do tempo muito mais do que era acostumado. Teu carro também sente frio e um dia ele te mostra o quanto ele sente quando resolve não funcionar e é aí que você entende que aquela tomada que sai de dentro do capô serve pra esquentar o bloco do motor. O frio também me trouxe novas brincadeiras: deixar na neve e fazer um anjinho, descobri que bonecos de neve também são pesados e que é possível construir fortes de guerra com os blocos de gelo que ficam no meio da neve. Isso sem falar em novas experiências que um nerd como eu não pode deixar de fazer.

Já conheci o frio em Alberta, Ontario e nos Estados Unidos. Confesso que nenhum desses lugares está tão preparava pro inverno quanto Québec, mesmo New York, admirada por tanta gente, sofreu em 2012 com uma bela tempestade e ficou praticamente parada por alguns dias. Disso eu não posso reclamar por aqui. Mesmo nos dias onde as tempestades foram mais fortes, sempre era possível ver os caminhões e tratores tirando a neve das ruas e das rodovias, bem diferente da realidade dos meus amigos que moram em Calgary, que sofrem com a neve e são obrigados eles mesmos a limpar suas ruas se quiserem andar, mas neve é um assunto mais longo e eu falo sobre isso numa outra oportunidade.

Mas, na minha opinião, o mais bacana do frio é que ele aproxima as pessoas. Afinal, a física também explica que o atrito entre os corpos gera calor.