Re-aprendendo a almoçar

Categoria Trabalho, Estilo de vida na cidade de Québec Data 27/02/2014

Escrito porMasaru Hoshi

Enquanto eu pensava neste artigo, tentava lembrar do que era minhas maiores preocupações antes de chegar aqui. Sabíamos que encontraríamos trabalho aqui, que com certeza estaríamos em uma sociedade mais justa e muito mais segura. Mas além desses motivos tão genérico, havia um outro que não saía da nossa cabeça: comida. Parece ser uma razão estranha, certo? Afinal, no Québec as pessoas devem comer também. Então de onde vinha a preocupação sobre o que haveria de comida por aqui?

No Brasil tínhamos uma rotina consideravelmente diferente da que temos aqui. Quem não almoça no refeitório da empresa conta com vales-refeição e pode escolher gastá-los onde achasse mais conveniente. Trocar de empresa era geralmente sinônimo de procurar novos restaurantes e se adaptar a novos paladares. Quem tinha a sorte de trabalhar próximo ao centro da cidade ou em regiões com mais comércios podia se dar ao luxo de escolher entre restaurantes por quilo, buffets, churrascarias, casas de massa, lanchonetes, padarias e até o clássico « PF ». Mesmo com toda essa fartura chegávamos ao cúmulo de ficar « entediados » com as opções e buscávamos paladares diferentes.

Eu acredito que o Brasil deve ser o único país do mundo que conta com esse tipo de benefício. No Québec e em parte alguma do Canadá existe algo do gênero. As poucas empresas que eu conheço que oferecem esse tipo de benefício são desejo de muitas pessoas, dentre as quais o Facebook, o Google, Apple e por aí vai. Almoçar aqui é sinônimo de pagar do próprio bolso ou se acostumar a preparar a própria marmita, esta última um belo grande balde de água fria para aqueles que nunca tiveram que fazer isso ou quem não é muito fã da cozinha.

Refeitório da Ubisoft Québec. Seis micro-ondas e duas geladeiras gigantes para as "marmitas"

Refeitório da Ubisoft Québec. Seis micro-ondas e duas geladeiras gigantes para as « marmitas »

Refeitório da Ubisoft Québec.

Refeitório da Ubisoft Québec.

Tendo crescido entre japoneses, comer marmita nunca foi nada do outro mundo pra mim, mas de modo geral no Brasil isso está relacionado a quem tem um poder aquisitivo mais baixo ou quem realmente gosta de cozinhar. Aqui, muito pelo contrário. São pouquíssimas as pessoas com quem eu tive contato que não têm como hábito trazer a sua própria marmita. Nas escolas, nas universidades, nas empresas e em todos os lugares, todo mundo encara isso com a maior naturalidade. As geladeiras ficam repletas de lancheiras e na hora do almoço os micro-ondas trabalham para atender à demanda daqueles que estão morrendo de fome.

Diferente do brasileiro, o québecois não tem o hábito de ter uma refeição completa com arroz, feijão, carne, salada e legumes. O cardápio deles pode ser uma sopa, pão com atum em lata, salada com frutas secas, macarrão com queijo, um sanduiche e pratos simples desse gênero. Alguns poucos arriscam fazer um cozido, mas nada de misturar arroz ou comer com farinha. Como eu faço para ter um cardápio sempre diferente, não cair na rotina e ainda assim continuar comendo bem sem apelar para fast-foods e coisas do gênero? Eu não sei. Nestes anos que moramos aqui essa é a parte mais difícil de todos os dias: saber o que comer no dia seguinte. Por sinal, deixa eu parar por aqui senão ficamos em almoço amanhã.

E você? Já pensou em montar um cardápio da semana e me mandar? Uma sugestão é sempre bem-vinda. Não esqueça de deixar seu comentário e compartilhar com a gente o que você tem achado dos artigos.