Olá e muito prazer!

Categoria Estilo de vida na cidade de Québec Data 27/02/2014

Escrito porMasaru Hoshi

Quando fui convidado para escrever aqui no Blog do Québec International, internamente duas coisas se passaram pela minha cabeça. A primeira foi: « Uau! Que bacana! Isso que é reconhecimento! ». E a segunda foi: « Ish! Há quanto tempo eu não escrevo pra um blog mesmo? » Mesmo antes de ter começado o PoDeixar e mergulhar na vida dos podcasts, já tinha algum tempo que eu não escrevia mesmo e confesso que estava meio enferrujado. Então achei melhor começar do básico e me apresentar (assim, quem sabe, eu pego no ritmo de novo). 

Bom, comecemos pelo básico. Eu me chamo Masaru Hoshi, nasci no Brasil e morei por lá durante 30 anos. Meu pai é japonês, imigrante de primeira geração. Viajou sozinho para o Brasil quando tinha 18 anos e lá aprendeu no dia-a-dia a realidade de uma sociedade completamente diferente da que ele conhecia. Nem mesmo o português ele sabia falar e só tinha uma vaga idéia do que era a vida das pessoas. Imagine que naquele tempo não tinha Internet, blogs, videos ou podcasts e até mesmo os programas de televisão que falavam de Brasil mostravam mais o lado exótico do que a realidade e o cotidiano das pessoas. Mesmo assim ele resolveu encarar o desafio e se mudou pra lá, muitas vezes descobrindo sozinho o preço dessa mudança e de ser diferente.

Eu nasci no norte do Brasil, numa cidade chamada Belém do Pará, conhecida como a porta de entrada da Amazônia, uma terra conhecida pela sua cultura, a variedade de frutas, temperos e por suas mangueiras gigantescas que crescem por toda a cidade, cobrindo ruas e avenidas com seus longos galhos e folhas, criando um refúgio do calor, em uma terra onde nunca se soube o que são temperaturas abaixo de 20C. Minha infância eu passei por lá, brincando nas ruas, visitando seus parques, correndo da chuva, assistindo as inúmeros shows e aproveitando tudo o que uma criança poderia. 

TÚNEL DA AV. PRESIDENTE VARGAS

Aos 15 anos mudei junto com a minha mãe para Curitiba, uma cidade no extremo oposto de Belém, cerca de 3600km em direção ao sul do país, uma terra que apesar de ainda ser Brasil, é completamente diferente do que eu conhecia até então. Colonizada por ucranianos, italianos, alemães e outras etnias que se juntaram no decorrer dos anos, pra mim a mudança era óbvia pra mim até no ar, mais frio e seco, diferente do clima tropical que alguns dias te dava a sensação de estar respirando vapor. Aquela cidade que me foi estranha por várias vezes me acolheu e me deu vários presentes, entre eles um novo sotaque, grandes amizades e várias vitórias, dentre as quais uma esposa e um filho loiros e de olhos claros.

Em 2006 tomamos a decisão de deixar nosso país e morar em uma terra que mais uma vez seria completamente diferente. Nosso destino era Québec, província do Canadá, que nos foi apresentada em uma palestra feita pelo ministério da imigração da província. Seus valores, sua história, costumes e até mesmo o clima me fascinaram e abriram meus horizontes pro que parecia ser a grande saída de todos os problemas que massacravam nossos dias. Foram 2 anos tentando aprender a falar o francês e vários meses preparando malas e corações para uma viagem que mudaria não apenas as nossas vidas mas a de muitos que deixávamos por lá.

O tempo passou e até mesmo as malas que trouxemos nossa mudança já não estão mais conosco. Nosso filho hoje fala 3 idiomas. A porta da nos casa passa 6 meses por ano coberta de neve. Nossas vidas se enxeram de novidades que nem sempre são fáceis de entender ou de aceitar. Hoje a cuia de açaí deu lugar à poutine, o chimarrão é mais uma peça de decoração do que um companheiro de domingo e a família e os amigos são na maior parte do tempo fotos e vídeos mas que tentamos visitar ao menos uma vez por ano. Sempre me imaginei morando no Japão quando saísse do Brasil, mas a vida me trouxe para um país não menos surpreendente, que me proporciona momentos únicos que faço questão de compartilhar sempre que possível.

Foto por Andrei Niemimäki

Foto por Andrei Niemimäki

Nessas indas e vindas eu aprendi uma coisa: não importa onde você vá, o quanto você se mude, sempre haverá algo diferente a que você não está acostumado. Se essas diferenças vão ser pedras no seu caminho ou histórias engraçadas, quem decide é apenas você.

Muito prazer e seja bem vindo.