A arte de falar o francês québecois

Categoria Estilo de vida na cidade de Québec Data 11/07/2014

Escrito porMasaru Hoshi

O Diego comentou em um artigo dele sobre a experiência dele em estudar francês no Brasil e como isso foi uma tarefa reconfortante.

Eu tenho que ser justo e falar de como foi que aconteceu pra gente também. Era 2005 quando eu ouvi falar do Québec e decide que queria morar aqui. A palestra do ministério da imigração era bem clara: sem francês, nada feito. Logo, a gente precisava estudar francês e não tinha chororô.

Como eu contei em outra oportunidade, quando eu terminei o ensino fundamental em Belém(que ainda se chamava « primário » naquela tempo), o idioma estrangeiro ensinado na minha escola era o francês. Claro que todo mundo da escola achava « o fim da picada » aprender francês quando em todo canto todo mundo só falava inglês. Inclusive eu era um dos que reclamava! Mas, nessa empreitada de aprender o idioma de Napoleão, depois de todos esses anos, eu pensei comigo: « Ha! vai ser moleza aprender esse francês! É só começar a ouvir e vou falar em dois tempos! »

Triste engano

Minha primeira escola foi a Wizard, uma escola de idiomas conhecida de Curitiba que realmente me deu um bom pontapé inicial pra colocar o « biquinho » em dia. Foi lá que eu descobri que meu primário não valeu pra quase nada a não ser dizer « merci beaucoup ». Fiz um intensivo de 2 horas por dia, 3 dias por semana, durante 8 semanas. Pensei no contexto: nosso filho tinha pouco mais de 3 anos, nós dois trabalhávamos o dia inteiro e eu ainda fazia pós-graduação aos finais de semana. Não foi nada fácil.

Sobrevivido o intensivão, ingressei num curso regular ainda na mesma escola durante alguns meses até que finalmente resolvi mudar. A razão era simples: apesar de ter aprendido a me « débrouiler » com o meu francês, eu sabia que quando chegasse em Québec a coisa seria diferente, que o francês do Québec era tão diferente do francês da França quanto o português do Brasil e de Portugal. Fiquei sabendo de uma escola chamada Centre Québec, uma escola de francês fundada por uma québecoise chamada Geneviève Pépin-Filion, que morava no Brasil há vários anos e que várias pessoas que pensavam em imigrar o que já haviam imigrado para o Québec, sempre acabavamo nos recomendavam. Parecia perfeito: acostumar o ouvido com o sotaque, as expressões e a cultura, sem falar na oportunidade de conversar com uma « vrais québecoise ». Nem precisaria estudar tanto assim. Afinal, o francês que eu aprendi durante o intensivo e nos últimos meses seria mais do que suficiente.

Mais outro triste engano

Se eu fosse comparar meu conhecimento de francês naquela época com o trabalho de fazer um bolo, eu diria que eu mal tinha colocado os ingredientes juntos na mesa. Eu e minha esposa estudamos durante um ano no Centre Québec. Foi uma experiência muito boa. Tivemos aulas de fonética, cultura, preparação para as entrevistas, ajuda na montagem do nosso dossiê e muito mais. Isso sem contar no aprendizado do francês québecois propriamente dito. Tínhamos acesso a DVDs, revistas, livros, manuais, etc., isso sem falar no prazer de encontrar com pessoas que tinham o mesmo objetivo que a gente. Fizemos grandes amigos lá que hoje moram aqui e ainda continuamos nos encontrando. Compartilhar experiências e informações era muito gratificante e motivante, especialmente pra quem vivia a incerteza inicial e depois a demora do processo em si. Estávamos confiantes no nível do nosso francês e prontos para chegar no Québec.

Quanto você conhece do francês québecois?

Se engano fosse dinheiro eu estaria rico.

Chegados ao Québec, a realidade era mais dura que a teoria. 1,5 de francês realmente foi o mínimo que poderíamos ter feito. Ao contrário de várias pessoas que chegam aqui, nós não fizemos a francisação oferecida pelo governo. Eu consegui manter o emprego que eu tinha no Brasil que era para o HSBC de New York. Eu dei sorte porque só precisava falar inglês. Foi um ano e meio que eu consegui me esquivar da necessidade de aprimorar o francês, tirando as lições de casa do meu filho, as idas ao mercado, ao médico e o dia-a-dia normal. Minha esposa não teve tanta folga. Apesar de ter chegado aqui sem emprego, 2 meses depois de estarmos morando aqui ela conseguiu um emprego onde continua até hoje.

Quando eu deixei o HSBC e entrei na Ubisoft, a história mudou. Mesmo com vários colegas que falavam inglês, todas as reuniões e discussões eram em francês. Hoje, quase 5 anos depois de entrar lá, eu acho que entendo 80% do que as pessoas falam. Vale dizer que entender não significa compreender. Existem milhares de expressões, termos, verbos, comidas, xingamentose e o raio que o parta que muitas e muitas vezes me passam batidos. Todas as semanas eu acabo aprendendo algo novo e tenho certeza que vou morrer e não vou entender tudo.

O que eu posso falar sobre o francês? É um idioma tão complexo quanto o português e requer muita dedicação. Pesquise, estude, troque informações. Tem muita gente por aí que está no mesmo barco que você ou que já passou por isso.

Mesmo o primeiro ministro sofre pra falar francês direito

Quer saber mais?

No PoDeixar sempre estamos contando fatos engraçados que acontecem principalmente com relação ao idioma francês. Escute estes dois programas onde nós desabafamos nossas próprias frustrações com o idioma e contamos várias curiosidades engraçadas: